PISCINA COMO PAISAGEM SENSÍVEL
Em sua segunda exposição na Brisa Galeria, Maritza Caneca revisita a piscina através do bordado, da fotografia e da pintura. Água, azulejo, luz e repetição tornam-se elementos de uma investigação sensorial e íntima.

3 de mai. de 2025
Em sua segunda exposição na Brisa Galeria, Maritza Caneca traz para o espaço da galeria uma arqueologia íntima e expandida da piscina — um elemento central em sua poética há mais de uma década. Mais do que um motivo recorrente, a piscina na obra de Caneca é um dispositivo visual e afetivo onde memória, desejo, contemplação e estrutura se entrelaçam.
A artista apresenta um conjunto de obras inéditas em pequeno formato que desafiam as fronteiras entre técnica, meio e linguagem. Entre elas, estão cianótipos delicadamente bordados à mão em tecido, fotografias sobrepostas com filtros coloridos (gel) que adicionam profundidade, cor e luminosidade, e pinturas a óleo que traduzem a geometria dos azulejos por meio de precisão cromática e sensibilidade pictórica. Juntas, essas peças oferecem uma imersão sensorial e material nas formas da água e na arquitetura que a contém.
O ato de bordar, por exemplo, resgata o trabalho manual feminino em diálogo com uma técnica fotográfica do século XIX, estabelecendo uma temporalidade alternativa — lenta, íntima — dentro da imagem. Os géis verdes aplicados às fotografias atuam como camadas que tanto ocultam quanto revelam, criando atmosferas que evocam tanto a memória quanto a ficção.
Em suas pinturas, Maritza Caneca adota a linguagem da abstração geométrica para reorganizar a iconografia da piscina. Azulejos — fragmentos de arquitetura funcional — assumem o protagonismo como módulos cromáticos que constroem superfícies ordenadas e vibrantes. A artista investiga a repetição e a variação dentro da grade, gerando composições que oscilam entre a precisão gráfica e a nuance sensorial, onde a luz parece emanar da própria estrutura pictórica.
Nesta nova fase de sua pesquisa, Maritza Caneca afirma o poder da repetição e da variação como estratégia conceitual, convidando o espectador a revisitar o mesmo — água, azulejo, borda — com frescor e estranhamento. Há uma política do detalhe em jogo, uma recusa do espetáculo, que reposiciona a piscina do domínio da imagem pitoresca para o domínio da linguagem plástica e poética.
A exposição se desdobra como um pequeno atlas afetivo, onde cada obra serve como ponto de partida para uma cartografia líquida, fragmentada e profundamente pessoal.
Brisa Galeria, 2025








