ENTRE A ÁGUA E A TERRA
Entre a Água e a Terra reúne Maritza Caneca e Daniel Mattar em um diálogo fotográfico entre água, paisagem, tempo e percepção.

23 de set. de 2021
A exposição Entre a Água e a Terra reúne dois artistas que, pela singularidade de seus trabalhos, parecem percorrer trilhos paralelos, de natureza autêntica, em uma busca pelo retorno à simplicidade, ao momento e à quietude. Com quietude, não quero me referir à acomodação ou à letargia, mas à plenitude e à paz.
Maritza Caneca é uma fotógrafa com uma carreira construída nos sets de cinema e fora deles. Trabalhou como diretora de fotografia durante três décadas, e seu trabalho pessoal caminhou para uma pesquisa mais conceitual sobre a plenitude que a água proporciona quando pensada em um enquadramento arquitetônico. Esse pensamento levou a artista a uma busca por espaços belos, serenos e fascinantes, momentos ou monumentos arquitetônicos em que o homem constrói uma relação de harmonia com a água.
A libertação que o meio aquático exerce sobre nós e os lugares onde essa catarse acontece constituem o corpo de trabalho de Maritza Caneca. A artista captura o momento em que o elemento humano já não está presente, quando abandonou o espaço depois de utilizá-lo. Permanece o vazio, aparentemente frio, denunciando essa presença ou apenas sugerindo-a, seja pelo pavimento molhado ou por algum objeto deixado para trás. Outras vezes, não é possível saber se o momento já aconteceu ou se está apenas à espera de acontecer.
Ao longo desse percurso, Maritza não apenas revela os espaços, mas vai um pouco além, trazendo diante de nós sua alma, sua história, suas memórias e seus futuros.
Maritza vive atualmente entre Rio de Janeiro, Miami e Lisboa.
Daniel Mattar é um fotógrafo que, nos últimos anos, tem se dedicado a desvendar paisagens que nossa realidade cotidiana desconhece.
Somos, enquanto homens, vítimas de rotinas, em uma constante repetição de gestos e atos, condicionados pelo tempo fugaz que molda nossos sentidos. Raramente somos despertados para apreciar o silêncio, o movimento das marés ou outras atividades que não encontram espaço nas vidas agitadas e nas carreiras que perseguimos.
Daniel Mattar é de outro tempo. Seu trabalho serpenteia entre o real visível e aquilo que, embora exista, não se vê. O real imaginário, poderíamos dizer.
As fotografias de Mattar surpreendem em uma primeira observação. Somos levados a decifrar as paisagens. Os caminhos seriam artérias de uma corrente sanguínea pulsante ou rios de lava quente? Mais adiante, avistamos cordilheiras sem fim ou seria a mais profunda fissura dos oceanos?
Tempo, momento, utopia e sonho. Pedaços de microlandscapes revelados diante da lente, que tudo perscruta sem nada esconder.
Daniel Mattar, natural do Rio de Janeiro, vive e trabalha em Lisboa.
Entre a Água e a Terra, que a Brisa Galeria nos apresenta agora, é o encontro feliz entre dois artistas excepcionais, capazes de surpreender sem aviso, levantar questões e, ao longo de todo o processo, entregar ao observador momentos que preenchem e emocionam.
Rui Guerreiro, 2021









